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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

2015, pelas alturas de outubro

me integrei na conectividade
ganhei algum dinheiro adoçando a boca dos outros (e a minha)
amei muito
adquiri com 19 habilidades que deveria ter adquirido com menos de 9; e me sinto feliz
inseri na rotina macarrão instantâneo (acho que oficialmente virei uma universitária)
bebi muito, fumei muito
parei de beber, parei de fumar
acabaram as páginas do meu livro de receitas
fui má aluna
não fiz muitos amigos
mas fiz relativamente muito sexo
aprendi a beber água
não fui chamada para o melhor trabalho do mundo (ainda é outubro)
consegui cicatrizes
(re)aprendi a amar minha mãe
tive muitos cortes e cores de cabelo
enterrei meu sangue
vi um ovni

terça-feira, 20 de outubro de 2015

carta precoce pra uma futura despedida que talvez exista ou talvez não

se eu zarpasse, queria te pedir pra lembrar de mim. se eu virasse uma pequena abelha, ou um avião, ou uma folhinha ao vento, teria vontade de te pedir que me olhasse pra sempre com carinho. se eu virasse mulher e me juntasse aos tigres, leoas, outros felinos, te pediria, lembra de mim, não esquece de mim. te pediria pra não achar que isso é fuga. porque se eu partisse e um dia pensasse em voltar, pensaria em voltar pro lugar que eu ocupava em você. no teu ombro. na curva do teu pescoço. peito.
mas não te peço nada e não é "se", é "quando".
quando eu for, que você me esqueça rápido.
te quero completo. te quero (no) agora.
e seguirei contaminada, não como uma doença, mas como uma semente. ela brotará com a chuva da estrada e suas raízes estarão fundas nos meus olhos, nos meus olhares, nos meus passos, nas palavras carinhosas dirigidas a outros e outras que não serão você.
semente sua. mesmo que eu não lembre disso.

sábado, 17 de outubro de 2015

senti saudades de acordar na sua cama. levantei antes de ti (você não viu). te beijei o pescoço com cheiro de alfazema. por engano coloquei seu sutiã. te fiz café bem forte (não tomei). te beijei o pescoço mais uma vez. apertei o rosto contra o travesseiro tentando prender seu cheiro na minha caixa torácica.
amanhã eu te ligo. ou amanhã penso em você.
precisei ir embora cedo pra te digerir melhor.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

por cima plenitude de solo - por baixo água que arrasta
rios subterrâneos existenciais
dificílimo explicar.
olhei no espelho por um momento e percebi que eles vazavam pelo rosto.
tentei conter água que arrasta
arrastou-me
"pra quem é que você pede tantas desculpas?"
talvez pra mim, por não dar bom uso ao corpo que recebi
talvez para o espaço que eu (mal) ocupo na terra
talvez eu diga porque seja uma palavra forte que me alivia


------- confluência de falas que me aliviam----------
desculpa. desculpa. desculpa. eu te amo. barro. furos. tremor. incrível. morrer. te amo. vai embora. grito. corante. algema. tralha. carregar. corrida. quermesse. crepitar. fagulha. agulha. sangrar. érre. água. solitude. debilitoso. brilho. aguaceiro. chifres. te odeio. mãe. quinta. flutuante. engenhoso. uterino. intensivo. intenção. ATENÇÃO. abraça. ordem. enforcado. querosene. dezembro. rugas. vômito. epitélio. maquiagem. desculpa. desculpa. desculpa desculpa desculpa cortar. corar. atrapalha. vazamento. endométrio. quinquilharia. frade.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

sagrado adormece

embora eu não lhe dê atenção
se o fizesse poderia ouvir um tambor forte de terra
um rio longe chamando meu nome
uma dor no útero como se a lua inteira se revirasse e retorcesse em mim
uma vontade de errar
os pés quentes demais pedindo chão ou areia
os pesamentos navegantes

embora eu ignore minha alma
sinto Netuno mudar de posição
me sinto alinhar quando a coluna ereta
sinto força na arruda e nas outras ervas mágicas
e todo o resto que existe em mim e em todo resto em que eu existo
e existindo em uníssona unidade tamborilar a vida
sem saber o que é eu e o que é outro
embora os olhos fechados

peito-maré

se alguém pensa que eu vou sucumbir, que vou afundar
anunciarei partida e içarei minhas velas tão alto que deus vai reclamar.
e remarei tão rápido que virarei um pontinho alcançando o horizonte e logo não serei mais visível. e não sentirei remorso ou saudades e nem pensarei em quem deixei acenando na praia.
me entregarei com graça às correntes e as marés que me arrebatarão e dormirei sozinha na proa, sendo guiada pr'onde for que o vento queira, toda iluminada nua coberta de sol.
e quando estiver tão longe, derramarei as últimas lágrimas pra juntar meu sal com o sal do mar, e deixarei que Iemanjá sopre suave um vento que seque meu rosto e aqueça meu pensar.
e então, quem sabe, um dia eu afunde. vire morada ou alimento pra peixe, coral, sereia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

você verão

você era o quente dos trópicos.
as gotinhas de mar que pingaram dos seus olhos fizeram o oceano inteiro. e da sua dor salina brotaram peixes. dos soluços, corais.
Iemanjá nasceu