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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

como eu ando, pra quem pergunta
ando pesquisando rotas de bicicleta no google maps
ando tirando fotos nua pra me ver melhor, e as vezes enviando-as a alguém
ando chapada por ruas de paralelepípedo encontrando guarda-chuvas verdes e sendo fotografada por pessoas queridas
ando olhando pro céu
ando cortando um pouco o cabelo
ando usando rímel azul
ando fritando coxinhas
ando mudando de ideia, me questionando sobre coisas bem d'aqui dentro. enganando pessoas de que minha vida não anda um completo tédio. ando acordando tarde. ando fazendo longas faxinas.
ando cansada.
"estou exausta. mas forte. muito forte."

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

antes do primeiro quarto de lua, como manda a tua intuição.

(pra curar, não demoro e vou te embalar no mar. no sal que tira toda a maquiagem e poeira dos dias)

vou jogar muita coisa fora. algumas coisas tentarão segurar-se, agarrar forte as paredes do meu crânio, resistir aos movimentos peristálticos. algumas delas vão mesmo implorar, numa tentativa quase bem sucedida de ficar fora do fluxo de expulsão. e eu talvez quase dê ouvidos, mas prosseguirei. não demonstrarei piedade (ainda que sinta alguma) nem pelo menor segundo que existe.
as ruas estarão alagadas com os meus restos, alagadas das coisas que joguei fora. pode ser que alguém, que estava passando, veja a quinquilharia e queira uma coisa ou duas e as pegue. o que sobrar, viajará e desaguará no lugar onde os restos desaguam.
no fim, eu e minha casa estaremos vazias e sangrando. com marcas de papel de parede arrancado. perceberei que joguei algumas coisas importantes fora, como pedaços da minha carne e até alguma lasca de um órgão vital, mas serei resiliente. estarei em carne viva e serei resiliente.
será tudo muito, muito dolorido, e para me curar, deitarei por cima e envolta na e em volta da e sob a manta morna que o mar é.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Eu sinto muito (forte) por todos os moradores enterrados por ganância lamacenta. De Mariana à Linhares. Recebo a dor dos índios, que não bastasse todo o resto pelo qual choram, choram agora pelo rio sagrado morto. Quando um desague que foi bonito, doce no salgado, agora é veneno no salgado, no ápice do ritual das tartarugas marinhas, e ovos parindo filhos de metais pesados. Vale do Rio Morto. Choro pelos que habitavam as beiras e o fundo do rio. Animais humanos e não humanos. Pelos que bebiam do rio, pelos que respiravam dele. Choro pelo mar, amor antigo, vê-lo sangrar.
Tremo de medo da velocidade do ódio. A velocidade que a lama corre, a velocidade da vida humana, a velocidade que atropelou o pássaro.
E me entristeço ainda pela lama dos outros lugares do mundo, a lama verdadeira, limpa e fresca, bela, úmida, água na terra, cheirando a mundo, que teve o nome roubado e usado como eufemismo pra RESÍDUOS TÓXICOS DE MINÉRIO. Meu coração está soterrado.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Falos, cataratas e culturas antigas com lendas sobre centauros. Mas eu preciso dar um jeito de conseguir algum dinheiro.
Genocídios, especismo, neblinas, até chuva de sapos as vezes acontece. Curvas acentuadas, subidas íngremes, a mais variada ordem de sexos e atividades sexuais. Possibilidades e uma gama de substâncias capazes de colorir meus cabelos.
Mas preciso de emprego. Rotação de Vênus, marcos astrológicos, 11 de novembros, muros brancos, telas brancas, física quântica e budismo. E EU PRECISO DE DINHEIRO.
Peixes, drinks coloridos, pílulas coloridas. Cheiro de vômito. Instrumentos de sopro.
Sombra que a água faz quando atravessada pela luz, bucetas, árvores com mais de mil anos. Grupos de dança, encontros cegos, encontros combinados, ombros queimados de sol, bebês.
Mas preciso de emprego. (isso é um pedido de emprego. se alguém tiver um, me dê.)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

aliás, um saber morrer

sei morrer. (e falo por mim, ninguém mais).
morrer é um código que sempre esteve ali. morrer é um fato para o qual nunca olho, mas sinto em todos os segundos sua presença invisível devoradora de tempo.
carrego comigo a capacidade de morrer. nunca a perderei. carrego com afeto, bem acomodada e aquecida, em algum lugar de mim onde guardo as coisas mais importantes da existência.
morrer é um pequeno lembrete.
quando eu morrer, será como o toque de um despertador.
vivo como uma pessoa que tem embaixo da pele um chip. está ali e nunca deixo de saber, mas permito-me esquecer para que a vida se faça.
e esqueço de morrer para que a morte se faça.
alma enormemente microscópica. pedaço ínfimo de infinito. finitude imensurável.
se meu corpo refletisse alma, eu beberia o mar inteiro. aqueceria seres ectotérmicos com o meu sangue (e talvez eu própria entrasse em completa ebulição). seria feita de metal e penas.
percebi isso ao tocar seus mamilos duros. me dei conta que nosso corpo é líquido como é líquido sentir coisas. pensamentos de água morna e corpo que reflete (vagina, boca, poros, uretra, nariz, cortes)
mas não a nevrálgica infinita sólidalíquidagasosa volumosa e invisível alma. dela nada tenho nos músculos porque sei morrer.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

tuas mãos são a mistura exatamente dosada de brutalidade e doçura. os dentes marcam doído minha pele e os lábios beijam as marcas. você é doce e amargo.
os antebraços teriam força pra me esmagar (e as vezes fazem), mas um deles pousa leve no meu em-volta pra guardar meu sono e o outro vira travesseiro.
os dedos de uma mão passeiam delicados pela minha vagina, e os da outra mão me estapeiam o rosto, a bunda, puxam forte meu cabelo. você é dor e orgasmos.
menos as palavras; sempre carinho, nunca aspereza.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

2015, pelas alturas de outubro

me integrei na conectividade
ganhei algum dinheiro adoçando a boca dos outros (e a minha)
amei muito
adquiri com 19 habilidades que deveria ter adquirido com menos de 9; e me sinto feliz
inseri na rotina macarrão instantâneo (acho que oficialmente virei uma universitária)
bebi muito, fumei muito
parei de beber, parei de fumar
acabaram as páginas do meu livro de receitas
fui má aluna
não fiz muitos amigos
mas fiz relativamente muito sexo
aprendi a beber água
não fui chamada para o melhor trabalho do mundo (ainda é outubro)
consegui cicatrizes
(re)aprendi a amar minha mãe
tive muitos cortes e cores de cabelo
enterrei meu sangue
vi um ovni

terça-feira, 20 de outubro de 2015

carta precoce pra uma futura despedida que talvez exista ou talvez não

se eu zarpasse, queria te pedir pra lembrar de mim. se eu virasse uma pequena abelha, ou um avião, ou uma folhinha ao vento, teria vontade de te pedir que me olhasse pra sempre com carinho. se eu virasse mulher e me juntasse aos tigres, leoas, outros felinos, te pediria, lembra de mim, não esquece de mim. te pediria pra não achar que isso é fuga. porque se eu partisse e um dia pensasse em voltar, pensaria em voltar pro lugar que eu ocupava em você. no teu ombro. na curva do teu pescoço. peito.
mas não te peço nada e não é "se", é "quando".
quando eu for, que você me esqueça rápido.
te quero completo. te quero (no) agora.
e seguirei contaminada, não como uma doença, mas como uma semente. ela brotará com a chuva da estrada e suas raízes estarão fundas nos meus olhos, nos meus olhares, nos meus passos, nas palavras carinhosas dirigidas a outros e outras que não serão você.
semente sua. mesmo que eu não lembre disso.

sábado, 17 de outubro de 2015

senti saudades de acordar na sua cama. levantei antes de ti (você não viu). te beijei o pescoço com cheiro de alfazema. por engano coloquei seu sutiã. te fiz café bem forte (não tomei). te beijei o pescoço mais uma vez. apertei o rosto contra o travesseiro tentando prender seu cheiro na minha caixa torácica.
amanhã eu te ligo. ou amanhã penso em você.
precisei ir embora cedo pra te digerir melhor.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

por cima plenitude de solo - por baixo água que arrasta
rios subterrâneos existenciais
dificílimo explicar.
olhei no espelho por um momento e percebi que eles vazavam pelo rosto.
tentei conter água que arrasta
arrastou-me
"pra quem é que você pede tantas desculpas?"
talvez pra mim, por não dar bom uso ao corpo que recebi
talvez para o espaço que eu (mal) ocupo na terra
talvez eu diga porque seja uma palavra forte que me alivia


------- confluência de falas que me aliviam----------
desculpa. desculpa. desculpa. eu te amo. barro. furos. tremor. incrível. morrer. te amo. vai embora. grito. corante. algema. tralha. carregar. corrida. quermesse. crepitar. fagulha. agulha. sangrar. érre. água. solitude. debilitoso. brilho. aguaceiro. chifres. te odeio. mãe. quinta. flutuante. engenhoso. uterino. intensivo. intenção. ATENÇÃO. abraça. ordem. enforcado. querosene. dezembro. rugas. vômito. epitélio. maquiagem. desculpa. desculpa. desculpa desculpa desculpa cortar. corar. atrapalha. vazamento. endométrio. quinquilharia. frade.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

sagrado adormece

embora eu não lhe dê atenção
se o fizesse poderia ouvir um tambor forte de terra
um rio longe chamando meu nome
uma dor no útero como se a lua inteira se revirasse e retorcesse em mim
uma vontade de errar
os pés quentes demais pedindo chão ou areia
os pesamentos navegantes

embora eu ignore minha alma
sinto Netuno mudar de posição
me sinto alinhar quando a coluna ereta
sinto força na arruda e nas outras ervas mágicas
e todo o resto que existe em mim e em todo resto em que eu existo
e existindo em uníssona unidade tamborilar a vida
sem saber o que é eu e o que é outro
embora os olhos fechados

peito-maré

se alguém pensa que eu vou sucumbir, que vou afundar
anunciarei partida e içarei minhas velas tão alto que deus vai reclamar.
e remarei tão rápido que virarei um pontinho alcançando o horizonte e logo não serei mais visível. e não sentirei remorso ou saudades e nem pensarei em quem deixei acenando na praia.
me entregarei com graça às correntes e as marés que me arrebatarão e dormirei sozinha na proa, sendo guiada pr'onde for que o vento queira, toda iluminada nua coberta de sol.
e quando estiver tão longe, derramarei as últimas lágrimas pra juntar meu sal com o sal do mar, e deixarei que Iemanjá sopre suave um vento que seque meu rosto e aqueça meu pensar.
e então, quem sabe, um dia eu afunde. vire morada ou alimento pra peixe, coral, sereia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

você verão

você era o quente dos trópicos.
as gotinhas de mar que pingaram dos seus olhos fizeram o oceano inteiro. e da sua dor salina brotaram peixes. dos soluços, corais.
Iemanjá nasceu

terça-feira, 29 de setembro de 2015

se escrevo, é pra deixar os rios correrem
escrever não me serve se você usar as palavras pra amarrar esperanças tuas, nos amores meus.
minhas palavras não são cordas, correntes, âncoras, barbantes, nem linha fina. nada que amarre. não é nada que faça nó ou prenda, ou estanque, ou estrangule.
não deixo fio solto nenhum pra que você se segure.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

tua fundura tem em mim um magnetismo bagunçado. confunde minhas bússolas, desregula relógios. me venta pra longe (ou pra mais perto, nunca sei)
me faz vírgula onde eu me achava ponto
com os pés na beira do oceano atlântico, não sei se o vento vem do mar, ou do teu cabelo, ou da tua risada rara, ou da minha confusão
e não sei se tenho mais medo de ser arrastada pelas correntes marítimas ou pelas tuas pupilas imensas, íris castanhas
(sinto que posso ser engolida num descuido. por isso serei toda cuidado perto de você)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

pra te ver; perfume atrás da orelha
memória da sua boca doce de vinho
cantar baixinho no caminho da ida
ter medo
não ter mais

te olhando saber que não sei nada da vida e nem tu

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

a palavra vem sutil como a tristeza. e se anuncia baixinho, como se não quisesse realmente ser notada.
se faz tão presente quanto uma camada fina de água sobre chão liso. se faz presente no topo dos prédios em construção, que se erguem como se estivessem rasgando a carne do céu e berrando afrontas à deus.
se faz presente nos mendigos e nas crianças de paixões mortas. se faz presente em dúvidas sobre o amor e noites em que se tem pesadelos mesmo não dormindo sozinha.
se faz presente como um pequeno choque elétrico. se faz presente na auto subestimação. é presente (momento e surpresa).

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

o mar sussurra histórias que sabe que logo vou esquecer.
respondo pra ele riscando a areia, sabendo que os riscos logo não existirão mais.
e é essa nossa relação; coisa que se cria do zero sempre que nos vemos e destrói-se só de olhar pro outro lado.
minha flor preferida só existe em agosto e setembro. o mundo cresce e desaba. eu nasci e morri e nasci.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

des e vantagens de ter a minha estatura

por algum motivo pisam mais no meu pé que no de outras pessoas
tenho que pedir para que as pessoas não vão tão fundo no mar, porque não me dá pé
barras de calças sempre sujas e rasgadas
comer menos amoras porque não alcanço as melhores, que ficam mais alto na árvore
pontas dos tênis estragam muito rápido de tanto ficar na ponta do pé
beijar pessoas altas
piadas que já ouvi
as pessoas acham que podem me pegar no colo



abraços são mais gostosos porque me aninho em qualquer peito
dificilmente eu machuco alguém
facilmente abro caminho entre multidões
sempre querem dançar de par comigo
tenho muitas saias compridas
durmo confortavelmente em quase qualquer lugar
pareço fofa xingando
ninguém nega se eu peço pra me pegarem no colo

domingo, 30 de agosto de 2015

física

somos coisas muito orgânicas. com nossos pelos, quenturas, toda essa água.
suor, gengivas, ossos. minúsculas veias aparentes.
e a alquimia tão molhada que os corpos fazem com a comida.
gordura embaixo da pele, endométrios que descamam e vivos sacos escrotais. ar quente saindo da boca. todos os tubos de carne que transportam, buscam, trocam, eliminam. 
e fedemos tanto, de corpo e palavra. 
hormônios. bolhas de sangue. tumores, doenças. 
impressões digitais. porra.
identificações 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

no peito dos seres das flores

Entro no silêncio verde. A primeira vista é tudo imóvel. Faz frio, mas não o sinto. Ao contrário, sinto as raízes úmidas e mornas.
O barulho dos meus passos dispara alarmes: "intrusa! intrusa!" os insetos gritam. Mas abrandam com a dúvida "intrusa?..."
e uma hora me aceitam.
Cipós balançam com delicadeza, como que ninando alguém. Galhos se juntam quase formando uma fortaleza, por onde só as aranhas passam pra costurar ali suas teias.
Sou recebida com a peraltagem dos gnomos. Eles me pedem "tira o sapato." Diferente do que se possa pensar, eles não usam sapatos. Nem chapéus. Nem qualquer roupa. Andam nus. No máximo usam flores enroscadas nos pelos.
Obedeço. Sinto o cheiro dos cogumelos que brotam debaixo das folhas molhadas do chão. Salão de dança das fadas. (É raro que pisem no chão, as fadas. Quando pisam é pra dançar. Quando dançam, semeiam cogumelos.)
Sinto-me bêbada. Sei que não tem a ver com nada que eu tenha tomado; tem a ver com o crepitar das folhas, lá em cima de tudo. Com os sapos do rio. Com a terra molhada grudada nas plantas dos meus pés. Com as árvores que caíram mortas e ficam na horizontal da floresta, da tão vertical floresta.
Aproximo meu rosto de um musgo que cresce num tronco de árvore. Ele me beija; é uma despedida. Tchau criaturas.
A claridade do descampado é como um soco no estômago.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Não te apressa, mas também não demora muito que essa vida acaba.
Não vale a pena tremer e tensionar os músculos do abdômen por ansiedade.
Abre a janela pra poeira entrar: se a solidão tivesse cor, seria a cor da sua pele.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Paula me esperava na saída dos últimos dias de aula antes do verão. Chegava de blusão largo ou um vestidinho solto, de seios livres dentro da roupa respingada de sorvete, e eu a queria sempre. Quando me via parece que sorria o corpo inteiro, as pernas finas, a pele quase preta, o corte de cabelo. Abraçava-a e ela tinha cheiro de limão ou outra coisa cítrica.
Íamos por aí, tomávamos vinho na praça, e no fim da tarde chegávamos meio bêbadas na sua casa. Antes de acender a luz, antes até de trancar completamente a porta, eu a puxava pela nuca e pressionava contra a parede, distribuindo beijos cegos pelo seu rosto.
Em poucos passos casa adentro já estávamos nuas. Paula me segurava como se a vida pudesse escapar entre as frestas dos dedos se não segurasse forte. E não tinha pudor ou medo.
Sentia, nesses processos, o cheiro do verão que estava chegando.
As vezes, quando feixes da luz dos postes conseguiam entrar na casa, via minha saliva espalhada pelo seu corpo e sorria. E ela sorria. E seu sorriso me acertava como um flash nos olhos.
Deitávamos no tapete, ainda processando tudo que acabava de acontecer. Seu gosto na minha boca. Seu suor. Vinho.
No fim, eu via o clarão do isqueiro iluminar tudo por um segundo, e então a fumaça subindo. Tentava prender a cena entre meus cílios; seus seios subindo e descendo pelo arfar, a pele molhada, os pelos.
Mas o verão chegou rápido e derreteu as imagens. Porque éramos tão insuportavelmente humanas.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Esconde isso que pende do seu corpo. Aperta bem com sutiãs. Não lembra que seu pai disse que você "já tem teta grande, não tem vergonha não? vai por um biquíni maior" (lembra disso e não venha me provocar com eles. mas mostre-os quando eu pedir, safada).
Esconde esse sangue que te sai. Finge que não existe. Você realmente precisa falar isso alto? É sua intimidade, nojenta. São suas "coisas de mulher", é sujo, ninguém precisa saber. 
"Filha, o termo certo é "médico de mulher", tá bom?"
Esconde isso que tem no meio das pernas. Não quero ver calcinhas no varal. Aliás, que calcinhas são essas? Relaxada. E essas outras? Vulgar.
Prazer, imagina. Você é mulher, odeia sexo. Frígida. Ou não odeia? Vadia.
Mulher minha não precisa se masturbar não. Puta. Dou prazer sozinho. Não precisa saber do que ela gosta porque eu sei o que ela gosta.
pau.
Deixa que eu faço isso, flor. É trabalho pra homem. Fraca.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Amo até os beijos ensurdecedores no ouvido.

Ele vem macio com um olhar que não sabe que faz, mas faz, e que não sei explicar, mas falo sobre. Abraça quente. E acho graça na surpresa que ele mostra quando o beijo vem antes do "oi".
É maduro mas fala besteira e ri solto da própria piada. Ri gostoso, fácil, infantil. E olha fundo como se quisesse atravessar minha íris, cavar qualquer coisa atrás dela com os olhos, beijá-la e devolve-la ao lugar.
Amo a boca macia e a língua. Amo quando as usa pra falar, pra me beijar e pra me chupar.
Me acompanha na novidade, mesmo que não seja novidade pra ele. Me dá a mão, apoiando sem guiar.
Amo quando é tão chato que o odeio. E quando desata a falar sobre mil coisas que eu não entendo, e eu fico ali olhando sem ouvir nada porque gosto de olhar pra ele. E porque gosto de como a boca se mexe e dos dentinhos pequenos, e de como ele puxa o ar entre as palavras.
E gosto de ficar o dia inteiro na cama, esquecendo da fome, do sol que faz lá fora, de tomar banho. Transando muito e gostoso e deixando todo o quarto com o nosso cheiro.
Amo sobretudo o jeito que descobri amar. Amar muito mas não mais que a mim. E forte, mas sem cobrar retorno. Querendo-o bem mesmo que isso não me envolva, e ficar feliz de vê-lo feliz, e ficar triste com sua tristeza e orgulhosa das suas vitórias. Sentir saudade mas saudade boa, sem me magoar ou ofender se ele não sentiu também porque estava com outras mulheres.
E não pensar nele durante todo o dia, mas não pensar em mais nada quando ele aparece.
Me sentir tão grata que o amarei a quilômetros e meses de distância.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Me fortifico

Saúdo a dor de pernas abertas
aguento a temperatura altíssima do sangue escorrendo pelas coxas e as contrações da terra se fazendo dentro de mim.
Absorvo-as e me fortifico. Permaneço em pé.
Em nome do meu sexo, aguento sem sofrer. Aguento meus seios doendo e pesando como se fossem um corpo estranho, parasita, sensíveis até ao toque do lençol. Aguento todo mês. 
Aguento homens falando que sou o sexo frágil. E se fosse pra gerar, aguentaria. E se fosse pra parir, aguentaria.
Faço, sem reclamar, o trabalho que meu corpo pede. Me encho e me esvazio. Acompanho a translação da terra, acompanho a rotação da Lua. 
Planto minha força e me reconecto. E quando tudo acaba, me sinto solo bom, como quando o volume do rio diminui e suas margens ficam férteis.
E então as dores voltam e eu aguento. Levanto da cama, me divirto, dou risada. Não pra fingir que ela não existe, mas pra sentir que ela sou eu.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

642 coisas sobre as quais escrever; 245 dê o pior conselho possível

escuta.
quero que você me beije e só isso que existe. não pensa. não precisa me negar porque já me neguei antes.
quando você estiver confusa, olha pela janela e pensa que sua cabeça é feita de nuvens, e sua confusão passa tão rápido quanto o vento que leva a chuva embora.
quando estiver triste quero que você pegue sua bicicleta e pedale até a serra do mar ouvindo a música que te lembre alguém que te machucou muito. e depois volte pedalando até a minha rua e me beije.
e quando se sentir pressionada, se demita e fume um baseado no seu ex-escritório. espera, esse na verdade é um ótimo conselho.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

As águas do mundo são sempre as mesmas

Um raio cai mil vezes no mesmo lugar. (você pode pensar que isso é bonito, como uma planta arrancada que ainda tem raízes. Mas não é.)
As águas de um rio passam, mas voltam. E eu esqueço de coisas mas de repente lembro, e arde. Porque resgato sentimentos que pensei obsoletos, e arde.
(sem doer, como sereno fino que não molha, mas existe.)
penso que já fui como um planeta recém nascido, em puro magma, em carne viva. exposto, aberto. que doía e molhava.
mas tenho feito-me solo duro e sei resistir ao rodar infinito dos corpos apenas com desconforto.
menos à minha própria órbita. essa dói.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

(642 coisas sobre as quais escrever) 258: Carta a um artista solitário

Eu também não falo espanhol

Oi. Quando o sorteador escolheu esse tema achei que não poderia ser coincidência. Então vou falar como se te conhecesse muito bem, como se soubesse seu nome e até te amasse.
Eu entendo a vontade de ficar sozinho num lugar muito alto. Uma vez vi o sol nascer no terraço de um prédio e agora não consigo lembrar de coisa mais bonita.
Não sei se você gosta de ser sozinho. Eu gosto. Talvez aprender a gostar faça bem (ou amenize o mal que te faz).
Espero que sua solidão seja arte tanto quanto puder. Não porque o mundo precise, mas porque talvez você precise pra não morrer afogado. E se quiser companhia, não estou.
Atenciosamente, ninguém.

para julho

a assimetria dos nossos contatos é uma coisa à qual meu coração não brinda.
seu céu branco e falta de sol me deixam deprimida. (não preciso disso porque na maior parte do tempo sou, eu mesma, céu branco).

segunda-feira, 6 de julho de 2015

peito-maré

se alguém pensa que eu vou sucumbir, que vou afundar
anunciarei partida e içarei minhas velas tão alto que deus vai reclamar.
e remarei tão rápido que virarei um pontinho alcançando o horizonte e logo não serei mais visível. e não sentirei remorso ou saudades e nem pensarei em quem deixei acenando na praia.
me entregarei com graça às correntes e as marés que me arrebatarão e dormirei sozinha na proa, sendo guiada pr'onde for que o vento queira, toda iluminada nua coberta de sol.
e quando estiver tão longe, derramarei as últimas lágrimas pra juntar meu sal com o sal do mar, e deixarei que Iemanjá sopre suave um vento que seque meu rosto e aqueça meu pensar.
e então, quem sabe, um dia eu afunde. vire morada ou alimento pra peixe, coral, sereia.

sábado, 20 de junho de 2015

Pessoas muito tristes tem um olhar de quem não sente nada. Uma apatia de sentimentos enferrujados. Amor sem uso.
Dormem mal e acordam no meio da noite com súbitas faltas de ar (como se respirar trouxesse pra dentro o que falta).
Acho que até querem exercitar seu amar mas afastam o objeto por proteção.
(proteger o que, se não tem nada aí?)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

eu te amo e aceito teu ir embora porque aprendi a ficar

pode levar tuas mãos e dedos e tuas ilusões construídas. leva seu peito, ombro e colo. leva sua liberdade e a faça maior. leva sua voz de sono e seu decrescente tesão.
vai, mas deixa pelo caminho essas tentativas falhas de enganar a si mesmo. e abandona sua preocupação.
tira da mochila a calma e veste. e se quiser ouvido, pega. e se quiser qualquer coisa, faço.
e que você seja feliz e completo e fique enquanto aprouver. eu fico. você me ensinou.
te amo, vai logo. eu aguento e até gosto. eu te amo, perto ou longe de mim.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

(Vó ancestral, sinto que devia te escrever ao invés de escrever as tristezas que me saem. Mas você me deixa vir essas coisas e preciso vazá-las. Agradeço por se encher e me encher de qualquer líquido misterioso.)

peguei a doença que seus olhos tem. doença de ver o que não existe
e deixar de ver o que existe.

luz, tira de mim. me atravesse como cristal.
como um pato de cristal na mesa da sala que captura a luz da janela sem querer e não consegue retê-la (por ser tão bonito).
não tente me decifrar.

terça-feira, 2 de junho de 2015

você gosta de mato mas dos meus pés na grama não gosta.
e gosta de tinta mas não quer pintar meu rosto
e tem amigosamores que bebem mas me julga quando estou bêbada
me chama mas me repele se eu te atender e diz saudade mas não aceita meus convites
e você tem esse olhar de quem ama o mundo inteiro mas ou é falso
ou não sou desse mundo

sábado, 23 de maio de 2015

você não vai entrar, passarinho

com suas asas que fazem furacões.
não vai entrar em mim de novo. com suas pequenas patas curiosas bisbilhotando a quinquilharia que sou/carrego.
com teu ar, cheiro e palavra.
te deixo ficar na varanda junto com todos os outros e até na sala, dependendo da minha força. mas não na alma. não na cabeça.
em mim não tem pouso pra você.

a vida toda é outono

já são quase 20 horas antes que você possa pensar nisso. e de repente é segunda e você tem quase 20 anos e seus peitos logo vão começar a cair.
e em vez das ideias florescerem, a mente é uma árvore seca de fim de outono. (sem os tons alaranjados vivos, só marrom e seca.)
e em vez de irradiar fome e vontade de mundo, mantenho olheiras e olhos vermelhos e pele apagada.
e pratico um amor inverso. 
e em vez de amizades efusivas, ressacas (físicas e não)


mas viver ainda dói bom.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

indecida-se

Minha cabeça redemoinha de palavras que não consigo capturar, como acontece com teu vento.
Te reconheci no vento (que rege nossos signos. que rege pipas, penas.)
E você fala muito. Mas não te encontrei em palavra nenhuma; foi no silêncio e no escuro. Quando não paramos de dizer, só paramos de falar.
E do mar veio mil ventos salgados pra embalar nossa embriaguez, então nossos olhos ventaram. E bocas ventaram.

As vezes cá dentro brisa.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

amoralua

Lua.
Te disse inconstante e usei tuas fases pra chamar meu lirismo. Me dei às marés, me fiz o abrir de ciclos, me fiz o fechar de ciclos.
Depois pensei que você não é inconstante. Porque sei sempre que depois de desaparecer, você aparece. Depois de diminuir, você cresce. Pensei que podia te prever.
Mas não posso. Não sei que cor terá amanhã. Não sei se poderei te ver da minha janela ou terei que procurá-la. E se procurá-la, não sei se te acharei entre as nuvens da cidade.
Mas tem uma tristeza que você não carrega. A tristeza da passagem do tempo. A tristeza fina, como garoa, que sinto ao ver fotos muito antigas, de pessoas que nunca conheci, que podem estar mortas ou muito velhas. A tristeza de imaginar o que pensavam, sobre o que falavam, quais piadas contavam. Quem amavam ou o que almoçaram naquele dia. Onde nasceram e onde foram enterradas, e por que foram enterradas, e SE foram enterradas.
E todas as pessoas antigas olharam pra você e te chamaram bonita.
Você me engana, Lua, fazendo parecer que o tempo não passa. Mas passa. E quantas faíscas você guarda.

domingo, 26 de abril de 2015

a boêmia burguesa

voltava, montada em sapatilhas delicadas, de um aniversário de um tio meio rico. não havia comido bem porque esse tipo de gente não come. usava um chapéu grande apesar da falta de sol que as noites geralmente tem. o pai a deixou de carro na frente da casa de uma amiga e partiu. assim que o carro virou a esquina, ela desceu a rua até um boteco cheio de gente triste, embriagada, ouvindo música alta pra não pensar. sem nenhuma empatia por aquele subordinado atrás do balcão, pediu a cerveja mais barata. e depois outra, e depois outra, e depois fumou maconha, e depois outra. deixou copos marcados de batom e sorriu para estranhos em troca de cigarros. seduziu por tédio alguns homens com quem ficou e alguma mulheres com quem não ficou.
o bar fechou e o dia quis amanhecer. ela vagou um pouco, ébria feito qualquer bêbado perdido, por ruas perigosas e que ela não sabia o nome.
chegou em casa meio sem querer e o pai fingiu que não sentiu o cheiro de quem não foi na casa de amiga nenhuma.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Não quero só contar com A Sorte. Quero confiar de vontade aberta em toda ordem de sortes e azares. Sair de casa sem saber o horário do ônibus e pegá-lo a tempo mesmo assim. E ser presenteada pela sorte com boas fotos, sem saber fotografar. Sair sem blusa confiando que existir é quente.
Defender com veemência a boa-fé do acaso e a casualidade da rua.
E desejar "boa sorte" com tanta sinceridade quanto eu dispor. 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Nem o poste que fica sempre aceso (nos dias de sol, ainda assim)
nem a criança no parquinho vazio
nem as casas abertas dos pássaros de barro
nada me acende (nem ascende, nem transcende)

quarta-feira, 25 de março de 2015

"a má gramática da vida nos poe entre pausas"

as regras de linguagem me dizem que não existe imperativo na primeira pessoa.
pois existe.
eu existo. eu me dou ordens.

S E L I B E R T E D E M I M!!

quarta-feira, 18 de março de 2015

a vida deve uma ter salvação que não seja entorpecer-se
e a tristeza oceânica deve ter um lugar pra desaguar que não sejam os olhos, ou as coisas materiais
e a alegria das coisas pequenas, não é possível que não exista um jeito
de se fazer com que ela dure quando essas coisas pequenas não puderem durar
e os amores não podem ser fugidios o tanto que parecem
e é preciso que a vida seja suportável tanto quanto é a solidão de vivê-la
e tem que ter um jeito de fazer com que as perdas não te quebrem, e os ganhos não te inflem

(solidão entorpece)

domingo, 15 de março de 2015

As vezes me faço rua num domingo de manhã.
Com seu sol gelado que encontra caminho entre os prédios e um vento fresco e novo. O mundo é cheio de coisas.
E as vezes você não entende (vejo na sua cara) como eu gosto muito de chuva (mesmo no frio).
É que ela veio de muito alto no céu. Nasceu nas alturas. Ao contrário de todas as coisas, que nascem do chão e esticam em direção ao céu, infindável. E tentam alcançar nuvens.
Mas chuva já é nuvem e não precisa alcançar nada. Ela nasce grande, alta, e se atira em queda livre em direção às nossas peles. É céu caindo em mim. Ela que nasceu ao contrário e não morre nunca.
Imagino que alguma gota de água do meu corpo possa ter sido chuva antes de me compor.

quarta-feira, 11 de março de 2015

insuficiente. não bate na borda. metade.
parte mais gostosa porém menos nutritiva de uma fruta meio verde. não-horizontal.
coisa que se pensa as vezes e, rápido, o pensamento pula para outro assunto mais interessante.
coisa que não atinge. dormente. um Quase.
garrafa de água quente. esquecível. pena colorida molhada. colchão desconfortável na segunda noite. estrela-do-mar com pontas faltando.
o pensamento pula para outro assunto mais interessante.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Você era um passarinho não-pousado e eu gostava de te olhar voando
você pousou em mim eu tive medo de me mexer
(quando queria te tocar você recuava.) Aprendi que você é daquelas coisas que quando se quer, precisa fingir que não. Que quando menos se estiver esperando, afaga. Uma coisa bem pequena e com vontade muito própria. E tempo muito próprio. Como uma borboleta que se assusta com a aproximação mas depois, quando te pegar distraído, pousa no seu nariz.
E entendi sua liberdade.

palavras não são matéria

O dizer é algo que quando se toca, esvanece. O que foi dito deixa no ar um contorno de memória, que por ser só contorno, a mente preenche com as inverdades que quiser.
Palavras causam sensações e vão embora como se não fossem nada. Caem da boca sincera e tornam-se mentira em contato com o ar.
E ninguém se faz lembrar apenas por dizer coisas.
Não servem pra fincar nada, em lugar nenhum (em ninguém).
Minha mente borbulha de palavras que não posso dizer para não validá-las.
Mas talvez possa escrevê-las;
vai embora. vai embora. vai embora. vai embora. vai embora. eu não te acredito. eu não te acredito. vai embora.

sexta-feira, 6 de março de 2015

coisa pouca quase nada
escorre fluindo muito
quase nada
apaga
querência
quermesse
aquece
as poças d'agua
o sangue quentura
e quando que quis correr de você
e desses olhos pequenos lindos pretos
quero quase nada

segunda-feira, 2 de março de 2015

carta da saudade que um dia eu vou mandar

à tua pele branca que já me envolveu.
Não sei quem você é hoje. Talvez não saiba também quem foi. (está acontecendo uma coisa que acontecia no nosso tempo; as palavras perdem o sentido assim que saem da minha cabeça. Espero que você me entenda.)
Hoje penso -com saudade- na tua estabilidade que eu costumava repudiar. E nas suas incongruências. E em como você era (ou é, mais do que nunca) um muro intransponível. Me culpo.
Quis por tempo que as pessoas que somos se re-conhecessem. Hoje, deixo estar.
Mas sobretudo quero que saiba que apoio o teu caminho e teus amores. E, se quiser notícias minhas, resumindo os anos, sou feliz.

de mim, com carinho e saudades.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

gota;

ou você pinga ou você volta. não adianta ficar. ficando você sempre será um potencial, uma coisa que pode ser mas não é.
é confortável olhar o mundo de fora e ainda pertencer a fonte; mas não é real.
te aconselho que pingue. (pinga em mim e me encharca, com essa tua pequeneza de gota.)
a terra é seca mas ainda existem lagos. rios. mares. oceanos.
se faça correnteza e me arrasta, me arrasta molhado. me arraste, gota. pingue. me pingue. goteja em mim.
pequena que você é, componha uma coisa. faça parte. chova. poça. (possa)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

esvaziando às/as quartas

vi uma borboleta sendo sugada pelo carburador de um carro. e quis falar sobre como me sinto hoje.
seu fim não me causou nenhum ímpeto. eu bem que quis. me desculpa. me desculpa borboleta amarela.
assisti uma morte gritante mas o que me moveu foram algumas garrafas de cerveja. e o movimento foi pra onde sempre vai: dentro de mim.
sua morte amarela. a fumaça da qual seus restos agora fazem parte. a fragilidade da vida.
e contra isso
eu.
eu flutuante, eu que pergunta. eu que me escolhe.
mas que me perdoa.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

"apesar de tudo, oh, apesar de tudo"

anoiteço
e apesar de anoitecer considero estrelas.
e apesar das leituras incorretas dos meus olhos
ainda lanço olhares
(e apesar de nada, e em nome de ninguém.)
e ainda vivo com gosto, com fogo, com líquido.
e ainda gosto de viver (ou já gosto de viver?)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

me perdi nas asas furta-cor dos insetos ou nas folhas e sujeira que o vento roda. nas quedas borbulhantes de água. no quadril de alguém. no sono.
me perdi na espuma do mar. me perdi ralando o joelho. no cheiro que tem tronco de árvore. me perdi em cerveja. na dor dilacerante de levar pontos na mão. nas coisas que se esquecem. perdi-me cortando cebolas.
sou perdida de mim como são as borboletas que voam desavisadas em direção ao mar. e não tenho gatilhos, exceto mim mesma. e não tenho freios, exceto as leis do mundo.
mas minha alma é potável.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

te amo e odeio, castelo de cartas

amo o trabalho que teve construindo(-nos) e amo até o vento que vem forte contra a estrutura.
odeio o estado letárgico do seu coração, que não pulsa, não chove, não trovoa, não faz tempestade.
amo e odeio essa fragilidade e odeio o enjoo que ela provoca (ou amo?)
e amo tanto quanto odeio o turbilhão que me faço

(não colocarei ponto final. isso não tem fim e nem eu)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

do navio retirante olhando a terra

(às delicadas veias florais, fontes que já foram).
para estraçalhar novelos de lã, espero que eu não me faça entender
e quando sua existência reflete em um lugar diferente (mas onde, onde, onde?)
e quando as delicadas veias florais vão virando rios e se perdem, ou estradas que de tão longas levam embora, ou uma coisa na qual aprofunda-se tanto que se perde a coisa.
mas refletir o que meu deus (ou ser qualquer que responda)?
que eu fique muda. muda, bem, bem muda. bem quieta, mesmo, muda.
ser engolida e sobretudo engolir
e voltar pra fonte d'onde aguavam-me ou brotavam-me veias, e elas corriam pequenas, finas, até crescerem um pouco, e um pouco mais, e virarem rios bonitos, aos quais não perdia de vista.
hoje são quase oceanos, com correntes frias e ressacas. arrebatam com força por pouco suportável.

que nada me pode

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

eu desapareci com minhas letras. ainda bem. desculpe.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

parte de coisa nenhuma

nunca fui tinta num quadro seu (e sou apenas apenas apenas minha.)

te escrevi uma carta e guardei numa gaveta que tem nome (Cartas Que Serão Sempre Nunca Enviadas.)
me desculpe pelo mal de usar essas palavras tão definitivas (nunca, sempre)
e o mal de fazer ressalvas demais (((())))
e quando você reclamou da mãe e ela chorou (e eu chorei. e você não.)
eu te amo. eu não sei falar. desculpa. desculpa. não sei usar palavras porque elas são tantas. eu te amo. eu te amo. (eu estou chorando. e você não.)
eu sou inteira passado. sinto falta da minha primeira dezena de anos. (e tenho coisas presas nos canais dos olhos)
EU TE AMO MAS ISSO NÃO ME DESAFOGA
EU TE ESCREVO MAS ISSO NÃO ME DESAFOGA
EU CHORO MUITO MAS ISSO NÃO ME DESAFOGA
EU NÃO SEI FALAR MAS ISSO NÃO ME DESAFOGARIA
EU MINTO MAS ISSO NÃO ME DESAFOGA
E EU TE INVENTO
eu te invento pra arrumar um problema.
{eu sinto sua falta ou de uma outra pessoa que faça o que você fazia [me dizer que ainda posso fazer arte (porque ultimamente minha forma de expressão são ressalvas e lágrimas muito salgadas que não me desafogam - ou só me afogam salgado.)]}

(eu nunca eu sempre)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

MINHA CABEÇA DE REDE FURADA
POR ONDE OS PEIXES PASSAM E VÃO
E EU QUE EM VEZ DE COSTURAR FAÇO MAIS FUROS PRA QUE ELES SEJAM NUNCA-CAPTURADOS
E VEZ OU OUTRA UM PEIXE DORME NOS FIOS PORQUE QUER, PORQUE GOSTA E EU
EU...............
PASSOU

sábado, 17 de janeiro de 2015

Não sei como é isso que falam "viver".
Me parece que é como tentar segurar um rio com a mão. Viver, me parece, é escapulir pelos dedos. Viver deve ser encontrar um balde cheio, no deserto - balde cheio de pedras.
Viver "é" quase como se não fosse. 
Viver é ardido e bom. Deve ser.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Ela chegava suja de rua e abria minha casa a noite, estrondosa, com a chave reserva que roubou fazendo graça. Entrava na minha cama e em mim, e atrapalhava meu sono com umas músicas desafinadas no ouvido.
E eu não a amava.
Tirava a roupa minha e dela. Perguntava se "você sente tesão por isso aqui", abrindo as pernas, fingindo não saber da resposta
e eu ria tentando não devorá-la com uma rapidez que o amor não tem.
Transávamos em todos os lugares da casa, tantas vezes quanto os bêbados e as putas podem aguentar. Depois a vida parecia suave nas costas nuas que ela me virava pra bolar um baseado. (já reparou na sensação incrível que é observar uma mulher bolar um baseado depois do sexo?)
A via, sobretudo como minha possibilidade de não-amor.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Você é grave, grave. E olha como quem viveu essa e outras mil vidas. E fala como quem fala apenas para botar na frase as entrelinhas.
Você parece ser toda entrelinhas. Você não é mulher, é um rio manso. Claro na superfície, mas, de tão fundo, turva. E ninguém enxerga teu chão.
Quando Machado chamou os olhos de Capitu de ciganos, fez isso porque não te conhecia. Cigana.

Carta ao meu nunca gerado filho

Não vou te pedir desculpa. Um útero vazio do seu corpo em formação não poderia te doer, porque você não-é.
(você não-é e eu te conheço bem.)
Não que eu fosse uma mãe ruim; seria crua. Seria mãe como é a maré, que, por amor, toda noite se faz cheia e mata milhares dos seus filhos, deixando-os ao longo da areia da orla, lindos, mortos. Pra que não atrapalhem a marcha desapressada da vida (nem mãe nem filhos.)
Não pense que nunca quis te existir. Ao contrário, quero ainda agora. E cumprir atenta cada etapa; te conceber, abrindo meu corpo pra que o mistério da existência se faça. Te gestar, sentir você aumentar e ocupar espaços que costumavam ser meus. Sentir você me movimentar de dentro pra fora com a força dos seus pés contra as paredes do meu ventre, sua casa. E ver meus fluidos te alimentarem; antes pelo cordão que nos unia, e então, pelos meus seios, quando você decidir sair do meu interior. E você faria isso me machucando muito, muito, quando nós dois seriamos sangue e tantos outros líquidos, amnióticos e não. Mas com qual facilidade te perdoaria - a vida não é doce.
Assim te veria; não como alguém que me ama, mas como alguém que me é. E por você sentiria um amor que é sem sutileza ou maciez.
Mas daí por diante já não saberia. Quando você começasse a me perguntar coisas, em lugar de sanar as dúvidas eu as compartilharia. E não te ensinaria nada porque te julgaria sábio. E te criaria sem criar, com uma inconstância que é minha.
Espero que entenda. (e sobretudo, que encontre ventre.)
                             Com amor. (sim, sim.)