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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ceci aprendeu saudade

Cecília, pequena, andando engraçado por causa das fraldas. Cecília, que tem dobrinhas de bebê e derrama sempre a comida do prato de ursinhos.
Ceci está aumentando seu vocabulário. Semana passada, aprendeu "agenda". Usava em todas as frases, transformava em verbos irregulares, em vontades, em nome da mãe.
Hoje aprendeu saudade. Tem saudade do gato, saudade da vizinha, saudade amarela, azul, vermelha.
Saudade é assim mesmo, Ceci, vem do nada, arrebata. Mas seu sofrimento só dura mais hoje, que amanhã, a palavra já é outra.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

4:50 da manhã. chegávamos na sua casa de solteiro. você acendeu um incenso ruim e me contou umas mentiras, prometeu umas coisas, se gabou das suas posições de yoga. você, que disse que não fumava mas esqueceu um cinzeiro em cima do rádio. você, que achou que precisava demonstrar que valia alguma coisa pra me manter ali até o sol aparecer, mas o sol não apareceu e quem raiou o dia foi a chuva. você que disse "te ligo mais tarde".
você que sempre soube que eu sempre soube que você não vale nada de fato, mas definiu sozinho um jogo no qual fingíamos. você fingia não ser um malandro e eu fingia acreditar. você fingia ser do tipo que me rouba uma flor e eu fingia ser do tipo que precisa disso pra ser conquistada.
o incenso realmente era péssimo e eu sei que você não acorda cedo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Hoje pensei no seu rosto. Com duas bolas imensas, claras de fogo, amarelas, queimando, queimando.

Hoje eu seria capaz de não me esquivar. Eu sei que a lua já estava cheia aquele dia, mas vai ver ela não estava cheia em mim.
Eu entendo o seu sotaque mas não fui capaz de te entender os olhos. As pontas dos dedos que me percorriam. A gratidão tão insuportavelmente doce.
Te recebi com o corpo tão aberto mas mesmo assim fui uma fortaleza impenetrável, com cacos nos meus muros. Com o sexo tão úmido e o peito, árido.
Desculpa.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Mariposa tem alma?

Eu deveria amar mariposas, mas as odeio.
Amo grilos, gafanhotos, sapos gosmentos, aranhas e até pulgas sou capaz de amar. Respeito parasitas intestinais, não tenho nada contra carrapatos.
Mas tenho medo de mariposa, nojo de mariposa, asco de mariposa.
Sei que são bruxas. Isso me intimida? Fui mariposa em outra vida e amei platonicamente um humano? Meu crime. E como punição nasci de novo, aprisionada num corpo que estremece ao bater de asas desesperado.
Odeio-as, por terem asas que deveriam ser minhas. Elas me entendem e por isso não sou capaz de perdoá-las.

sábado, 9 de agosto de 2014

Quando se está ouvindo uma música com som alto e alguma coisa
de repente
faz a música parar sem terminar e tudo fica
silêncio

é teu silêncio que ecoa 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Te procuro onde tiver música

Qualquer cantinho, violão, pandeiro. Em qualquer motivo musical, qualquer festa, bar, qualquer rodinha de choro.