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domingo, 28 de maio de 2017

Fazem longas semanas que não nos vemos.
Não sei como está sua barba, não sei como está seu sistema imunológico e não sei se você resolveu seus problemas. Não sei se você está feliz. Eu disse semanas mas parecem anos.
Ontem usei batom escuro mas você não soube. Tem um corte pequeno na minha bochecha que já deve estar curado amanhã, e você nunca saberá, a não ser que eu te conte (não vou). Tenho escrito no papel, e não no computador, quando é sobre você. Acho que quero que pareçam cartas (que serão sempre nunca-enviadas). Foi meu gato quem fez o corte. Meu gato que te fazia espirrar.
Não consigo mais evocar com absoluta clareza a memória do seu cheiro, como eu conseguia alguns dias anos atrás. Isso não quer dizer que eu pense menos em você.
Estou escrevendo isso no lugar onde tudo começou, com a caneta de um estranho que parece impaciente. O céu está bem cinza e me conforta saber que ele te cobre também.
Eu disse cinza, mas é um dia fatalmente azul. (acho que estou usando essa palavra do jeito errado).
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Hoje reparei que não importa como você se sente sobre mim. Pra ir mais fundo, hoje reparei que você, na verdade, nem existe. O que existe sou eu
minha cabeça
minha criação
e o olho que olha a mira.
Vou agora mesmo mandar uma mensagem dizendo que tenho saudades. Enviada.
Não, não tenho saudades de transar contigo. Não quero tocar sua boca com a minha. Não tenho carência de você; tenho saudades. Não da sua pele mas da sua presença, da sua palavra, das suas piadas.
Tu respondeu - está feliz e tem saudades também. É possível que tenha diminuído 1 cm das centenas de quilômetros e de décadas e de fatos entre nós?
Não importa porque você não existe. Essa pessoa para a qual eu escrevo, de quem eu lembro e em quem eu penso incessantemente não é uma pessoa que existe.
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Agora vou escrever sinceramente para o Você De Verdade: Quero tanto que você seja feliz. Tenho saudades de coisas que não aconteceram. Nós nunca nos olhamos de verdade. Eu serei vulnerável sempre que você quiser ou sempre que você não quiser. Eu nunca chorei por você, mas hoje eu vou. Vou chorar, mas não estou triste, estou feliz. Desejo coisas lindas para sua vida, tão lindas como a pessoa linda que você é.
Nunca mais vou escrever pra você, nem para o você que existe e nem para o você que não existe.
Talvez eu te envie isso, provavelmente não. Isso é uma despedida literária. Tchau.

12/05/2017 Isso não é um bilhete, mas uma carta.

Tento me convencer que via vontade de mim no seu nunca-vulnerável rosto.
Mãos minhas ter percorrendo mais que só na pele, como planetas gigantes orbitando você. Orbitando a nunca-vulnerável você.
Me veio uma urgência com a qual você não soube lidar, nem eu, eu comendo sopa antes que ela estivesse na temperatura boa, queimando todo o caminho até as paredes do estômago, sopa sulfúrica:
você.
Te esbarrar cruamente nos corredores e lembrar dos seus orgasmos chatos, rosto não-vulnerável gozando rápido, chato, escondido, fingir que não quero, fingir que nem quis estar na sua vida chata apertada corrida.
Hoje caminhei na rua sem te sentir, ou sem te saber. É lua cheia em escorpião. Deixei os olhos absorvendo a rua, piscando quase nada, e chorei, e as gotas pingaram de mim e furaram o asfalto, marcando o caminho pra que eu não esquecesse como voltar.
Não estou triste. Estou grave, inconsciente, fatalizada e azul
sobretudo azul.
Mas não triste. Adotei por hábito passar 10 segundos por hora desejando que você seja feliz e completa. Eu sou, nada ficou inacabado. A não ser talvez a sombrinha que deixei na sua casa e a não ser com certeza os orgasmos que você nunca me deu. Os meus não seriam chatos e eu não esconderia o rosto.
Resumindo os dias, estou bem.

terça-feira, 23 de maio de 2017

eu não espero a doçura da surpresa. não espero abrir a janela a noite e encontrar a lua cheia, morna, em um signo de ar. não espero chuva em dias secos, pé de amora no caminho, convites pra tomar chá. 
gostaria de não mentir.
tanto faz pra mim quem buzina no meu portão, sem avisar que vinha, trazendo uma novidade e o escorregadio susto dos dias. quem me liga urgente pra falar que viu um cachorro engraçado. quem diz por mensagem "vem aqui, vamos fazer alguma extravagância juntos."
pra mim tanto faz essas pessoas quanto quem qualquer coisa. a falta de curiosidade ou ardência de vida, tanto faz.
eu não quero a doçura da surpresa.
(gostaria de não mentir e estar satisfeita só com o pulso presente - mas estou trabalhando nisso.)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Gabi sentia as coisas e depois ficava na dúvida se podia ter sentido aquilo. Parece que se equilibrava na situação desconfortável de ser interrompida no meio de um espreguiçar. 
Percebia a cabeça difícil as vezes.
Passou a tarde preparando os músculos para receber outra pessoa, que viria no fim do dia. Imaginou ele aparecendo quando o sol estivesse fosco, a luz morna, um poste aceso aqui e ali. Imaginou ele trazendo seu cheiro característico largo e aceso, se esparramando em cima dela, mordendo-a, delicado e um pouco abrupto. Gabi era uma folha verde pousada na água, suave, contente da espera.
E contente da chegada que aconteceu mais noite do que ela esperava.
Como é injusto se apaixonar por homens. Como é injusto anular qualquer coisa selvagem que existe sem eles.
Gabi teve a ideia curta de boicotar todos os homens e manter seu corpo disponível apenas para mulheres.
Aí ele tocou sua bochecha com mãos gigantes, mãos quentes de homem, compridas, mãos que tocam, mãos que tocam sua vagina e lá estava ela pensando que o queria muito, lá estava ela invadida no peito por esse líquido pesado e quente que é querer outra pessoa. Gabi o queria muito.
Viu ele flertar com todas as mulheres dali, em jogos infantis de fingir desinteresse e receber risadas escandalosas das moças. Depois que as mulheres saíam, ele ia até Gabi e a beijava, quase num pedido de desculpas, ou numa busca por qualquer desagrado, ou ainda numa tentativa de dividir seu tempo e seu afeto entre todas.
E ela achava engraçado e levemente repulsivo. Você não é o único da minha vida, eu não posso ser a única do seu fim de tarde.
E pensou também que se ela estivesse apaixonada por uma mulher, vê-la flertar seria gracioso e excitante. Sem jogos ou dissimulações, apenas uma vontade pura e doce.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Levo meu tempo contigo como alguém que passeia, sem pressa, num caminho enfeitado com pedrinhas e cheio de coisas pra ver ao redor. Gosto da nossa comunicação feita de pele que raramente precisa do verbo.
Assim que você vai embora, entro imediatamente num estado de espera não-ansiosa, ou saio de um estado de suspensão do tempo - coisa estranha que você provoca.
(Das coisas que você provoca: uma espécie de confusão mental, uma sensação de que não te aproveitei o suficiente, um pequeno medo, um tesão absurdo.) 
Isso não é um bilhete.