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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

"tão estranha é a vida sobre a terra"

partem de mim pensamentos que são atirados na rua: choveu a semana inteira na minha cidade 
e todos nós com a roupa suja acumulando.
escolho um sapato, dou umas batidas pra descobrir aranhas 
pego o guarda-chuva e vou pelo bairro, pelas beiradas alagadas do asfalto, intuindo que um dia vou sentir saudades daqui.
tem beleza nas cores escuras de chuva, afinal. (acho que fui vencida pelo cansaço)
porque a árvore fica verde escuro e o céu despeja uma luz rala
e isso parece que mata a sede 
das coisas. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

se escutássemos em profundidade a aspereza sincera e boa do que somos
imagino que a sensação seria como boiar em segurança num lugar perigoso.
as vezes, escutando, percebo que meu coração e tripas não são de carne
são mar cinza de dia nublado. 
de horizonte desolador por ter só água, mas bonito, bonito! 
fazendo um som que parece ter saído da garganta de deus, som de água desmanchando o medo, som de bilhões de grãos de areia.
não agitado; real e manso como um bicho. 
violento apenas porque violenta é a vida
e navegável. 

domingo, 24 de dezembro de 2017

entre todos os passarinhos que vi essa semana, você é o que eu mais quero bem e o que eu mais quero livre. 
.
os últimos dias foram pra observar o efeito do sol no seu corpo. 
foram pra observar os efeitos da sua boca no meu corpo, do seu sorriso de inundação.
penso no estranho que é eu não conseguir muito bem escrever sobre você, enquanto sobre os outros é quase inevitável. 
dormi essas noites sentindo sua pele e sua respiração (cheiro doce e metálico), e as palavras vinham misturadas em brasa e cinza, nunca organizáveis, nunca colocadas no papel. as vezes acordava no meio da madrugada clareando e podia ver tua barriga, seus seios, tua suavidade, e sentia que ventava dentro em mim um vento gelado; no escuro eu ouvia o mar. 
e quando amanhecia e a primeira coisa do dia eram seus olhinhos de quem parece sempre ter aprontado algo, eu lembro de pensar que não importava o quanto de sol fizesse lá fora, nada poderia iluminar mais o quarto. 
as vezes quase me frustrei, porque apesar disso não te escrevia, não soube. acho que hoje entendi. 
eu não soube porque você não é a fonte, você é a própria poesia.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

distorce o tempo com olhos de ascendente em signo de terra
pequenininhos, quase pretos, sorrindo toda hora os dois.
parece que ela foi da minha vida antes 
e que é lembrança sendo acesa como lâmpada antiga e quente (alguma que depois de anos ainda funcionasse).
.
sei que estou correndo em direção à uma tempestade na praia. sei da eletricidade, da violência do vento, da iminência do impacto. sei que ela é suavidade, mas é de Iansã
mesmo assim, uso um corpo sem medo e vou
uso um corpo que inunda toda vez que ela sorri.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

fiquei sem escrever um mês inteiro. querendo produzir beleza, fico no raso de mim.
quis dizer coisas, mas ouvindo minha própria voz senti como falando uma língua antiga e morta. queria ficar sem falar um mês inteiro.
parece que as palavras são como parasitas de pele, expostas, incômodas
e todo mundo pensando que, é óbvio, melhor se não existisse pele.
ando sempre no meio da sentença
permaneço nas vírgulas